A LUZ NOS IMPRESSIONISTAS

Georges Morren, neo impressionista


Há um princípio de física segundo o qual você nunca vê os objetos em sua volta; o que você vê realmente é a luz refletida neles. Tome como exemplo uma mesa e projete sobre ela uma luz de Edison (a lâmpada comum de filamento). Depois, substitua essa lâmpada, seqüencialmente, por outros tipos, como luz branca, amarela, azul, vermelha, etc. A cada substituição, a mesa se apresentará com cores e tonalidades diferentes, de acordo com o tipo de luz empregada.

Agora, apague a luz e deixe a sala na mais completa escuridão. A mesa "desaparecerá". Mas em realidade ela não desapareceu. Continua ali, no mesmo lugar, pode ser tocada, verificados o formato e as dimensões, somente não pode ser vista, porque o que você vê de fato não é a mesa e sim a luz refletida nela.

 

a vinha vermelha van gogh

Esse é o conceito dos impressionistas para a luz. O objetivo do Impressionismo era captar o instante, a luminosidade de um determinado momento, em determinadas condições. Se um pintor impressionista inicia a pintura de um quadro ao raiar de um sol luminoso e se não consegue terminá-lo no mesmo dia, só continuará o trabalho no dia seguinte, na mesma hora e nas mesmas condições de tempo.

Quando você pesquisar mais a fundo o Impressionismo, encontrará quadros de pintores que reproduziram uma mesma paisagem em diferentes horas do dia, para captar a luminosidade de um determinado momento, do instante em que a imagem foi tomada.

retrato de monet por manet

Claude Monet retratado por Edouard Manet

E é por isso que os impressionistas tinham ojeriza ao estúdio, porque no estúdio a luz é artificial e não sofre variações, a não ser que essas variações sejam provocadas pelo próprio artista. A natureza, ao contrário, varia de luminosidade a todo momento e essas diferenças podem ser captadas pelo artista e transportadas para a tela.
Esse é, em resumo, o conceito de luz para os impressionistas. E essa é a razão pela qual o movimento impressionista só prosperou na pintura, não sendo transportado para a escultura e a arquitetura, e menos ainda para a literatura.

OS JARDINS DE MONET

O Impressionismo, como movimento, teve curta duração, iniciando-se em 1860 em torno de Édouard Manet (1832-1883) e diluindo-se após a morte deste pintor, quando os artistas se dispersaram, criando seus próprios estilos, ainda que baseados no no movimento impressionista, mas sem as regras rígidas estabelecidas por ele.

Claude Monet (1840-1926), o último deles a falecer, comprou um pedaço de terra em Giverny (França) em 1880 e, até a sua morte, passou a pintar grandes quadros tendo como tema sobretudo os jardins e o lago que mandou construir nesse local. repetindo exaustivamente as paisagens, mas em condições de luminosidade diferentes. Veja o resultado.

o jardim de monet

O jardim de Monet em momentos diferentes

IMPRESSIONISMO: 230 ANOS DE LUZ!

degas


Numa tarde fria de abril de 1874, na cidade de Paris de 230 anos atrás, foi organizada no ateliê do fotógrafo Maurice Nadar uma exposição de jovens pintores preocupados com uma nova forma de expressar a luz em seus quadros. Foi a primeira Exposição dos Impressionistas, que iniciou oficialmente o movimento artístico que viria a ser considerado como o de maior influência sobre a arte moderna. No grupo original estavam Monet, Manet, Renoir, Sisley, Degas e Pissarro, que figuram entre os principais nomes do movimento.

As descobertas da época sobre a fotografia, óptica, física e sobre o funcionamento da visão possibilitaram a exploração de novos parâmetros e concepções por esses artistas vanguardistas que, após a invenção da fotografia, não mais necessitavam retratar a realidade de maneira descritiva. A arte de então buscava retratar a realidade o mais fielmente possível. Após a fotografia, uma discussão sobre o papel da arte veio à tona, levada pela liberdade adquirida de expressar nas telas as impressões sentidas pelo artista.

Os impressionistas pintavam ao ar livre, privilegiando a luz natural para registrar as tonalidades que os objetos adquiriam ao refletir a iluminação solar em determinados momentos do dia, o que concedia imagens luminosas e coloridas da realidade a seus quadros. Esses pintores discordavam das correntes artísticas acadêmicas da época por considerarem todas as coisas dignas de serem pintadas, libertando-se da tendência em retratar, prioritariamente, figuras humanas.

Os impressionistas buscavam também uma expressão artística que não estivesse focada na razão e nem na emoção, mas sim que refletisse as impressões da realidade impregnadas nos sentidos e na retina. Segundo a professora de história da arte da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Claudia de Mattos, "no impressionismo encontramos pontos de luz estruturando a imagem, em uma mimese do funcionamento biológico da visão".

Esta decomposição da pintura em elementos mais simples repercutiu no desenvolvimento de uma nova maneira de pintar. No impressionismo, após a decomposição do real, a luz é utilizada como o elemento de construção da matéria.

A luz para os impressionistas constrói a forma, não apenas se reflete sobre ela" analisa a doutoranda em história da arte pela Unicamp, Paula Vermeersch.

Essa visão vanguardista, que tinham os impressionistas, causou uma tensão no ambiente artístico-cultural de Paris em meados do século XIX, e dificuldades em ser compartilhada pelo público e pelas instituições artísticas. Uma batalha ideológica em favor da nova maneira de pintar se iniciou na imprensa parisiense, liderada pelo escritor, jornalista e crítico de arte na época, Emile Zola. Ele escreveu inúmeros textos defendendo as obras de Manet, aclamando a arte realizada pelos impressionistas como a mais moderna da época.

Além das descobertas científicas, os impressionistas foram influenciados também pelas correntes positivistas da segunda metade do século XIX, dando lugar a noções mais objetivas; e "científicas" da realidade, propiciando maior espaço à experimentação. Monet, por exemplo, se interessava pela influência da luz nos diversos momentos do dia e nas várias estações do ano, pintando sistematicamente séries de quadros de uma mesma paisagem sob diferentes condições luminosas.

Os efeitos ópticos descobertos pela pesquisa fotográfica, sobre a composição de cores e a formação de imagens na retina do observador, influenciaram profundamente as técnicas de pintura dos impressionistas. Esses artistas já não mais misturavam as tintas na tela, a fim de obter diferentes cores, mas utilizavam pinceladas de cores puras que, colocadas uma ao lado da outra, são misturadas pelos olhos do observador, durante o processo de formação da imagem.

O impressionismo abre as portas para a pintura moderna, influenciando todas as gerações seguintes, pela quebra da totalidade, pela fragmentação. Além disso, a informação visual é complementada pelos olhos do observador, no processamento da imagem. A partir do impressionismo o trabalho do artista deixa de ser "metafórico" considera Branca de Oliveira, professora de história da arte da Universidade de São Paulo (USP).

mulheres no jardim de monet
bazille
pissaro

 

O impressionismo chega no Brasil já consagrado no exterior. O país vivia, então, uma fase nacionalista, em pleno processo de construção de uma legítima "Escola Brasileira de Artes". "A linguagem artística que ecoava com mais força na época era o realismo, por possibilitar a retratação de temas regionais" informa Cláudia.

Entretanto, as técnicas desenvolvidas pelos impressionistas acabaram influenciando a maneira de pintar de alguns artistas brasileiros. As tendências impressionistas podem ser observadas nas obras de artistas como Almeida Junior, Georgina de Albuquerque, Anita Malfatti, Eliseu Visconti e João Timóteo da Costa. Algumas das obras desses artistas podem ser vistas da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

As orientações estéticas e a composição das imagens utilizando os princípios impressionistas estão presentes até os dias de hoje nas produções gráficas, na propaganda e em outras formas de comunicação de massa. O impressionismo acabou por influenciar toda a produção artística do século XX, levando também à sua maior popularização. Para a professora da Unicamp, "a arte impressionista é o tipo mais popular de arte e que apresenta um amplo mercado alternativo. É o tipo de pintura mais relacionada à vida moderna."

Luciene Zanchetta

 

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